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A tuba é um instrumento com uma sonoridade poderosa, mas jamais estridente – do mesmo modo que também não tem um timbre que se possa considerar perfurante, como é o caso do trompete ou do oboé, por exemplo.
Assim, a tuba possui características sonoras que fortalecem e ampliam o tutti da orquestra, alterando o som geral da mesma, mas sem que isso signifique que o instrumento tenha em si uma tendência natural para sobressair.
De facto, a tuba serve habitualmente para valorizar, mas só muito rara e dificilmente se valoriza a si própria. Daí haver também quem pense que a tuba se deva considerar um instrumento doce e fundamentalmente melódico, o que também não é verdade.
Não se pode confundir uma tuba com uma Flauta, do mesmo modo que só por absurdo se poderia confundir um elefante com uma borboleta. E contudo, são ambos seres de uma extraordinária beleza e elegância, dentro dos movimentos que lhes são próprios.
A Tuba pode ser um instrumento lindíssimo, mas encarado e tratado tal como ele é. Como acontece muitas vezes com os contrabaixos e as próprias violas de arco, a função mais habitual da tuba é servir o conjunto e não salientar-se no meio dos outros instrumentos.
De um modo geral, os contrabaixos fortalecem os alicerces de todo o discurso musical, sem que se dê necessariamente pela sua presença. As violas de arco fortalecem as harmonias, sem que muitas vezes se repare que elas também estão a tocar.
A tuba fortalece o timbre, que seria totalmente outro, muito menos nobre e também muito menos seguro se acaso ela lá não estivesse.
Compreender-se-ão as preocupações de um compositor que escreva um Concerto para tuba, sabendo-se que o conceito de Concerto se associa automaticamente à ideia de solista, à exaltação das potencialidades de um instrumento, ao brilho, aos efeitos de malabarismo e até – nalguns casos menos desejáveis, mas assim mesmo frequentes – a um certo exibicionismo… Ora, nada disto é possível – e menos ainda desejável – com a tuba.
Assim, o que eu pretendi obter – e não sei, naturalmente, se o consegui… – foi escrever uma obra que pudesse realçar aquilo que de facto representa o carácter da tuba, e que é valorizar o conjunto. É para obter essa valorização do conjunto que a tuba tem, nalguns casos, de realizar passagens de verdadeiro virtuosismo técnico, sem que, de um modo geral, o público dê por isso.
Deste modo, o objectivo do Concerto que compus não é mostrar a tuba como ela não é, mas sim levar os auditores a tomarem consciência daquilo que a tuba realmente representa e – pode produzir em defesa de um valor superior que é a própria música no seu conjunto.
Não se trata de uma cerimónia de homenagem, mas sim de um acto de gratidão para com esse admirável e generoso instrumento.
António Victorino D’Almeida
















