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Do ciclo de canções “O feminino em Pessoa”
- Quem te disse (inspirado no poema Intervalo de Fernando Pessoa)
- Se não a amasse tanto (inspirado no texto original Fragmento de Carta a Ophélia Queiroz de Fernando Pessoa)
- Passei toda a noite sem dormir (inspirado no poema Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela de Alberto Caeiro)
- Tenho tanto sentimento (inspirado no poema homónimo de Fernando Pessoa)
- Já não sei andar só pelos caminhos (inspirado no poema O amor é uma companhia de Alberto Caeiro)
- Todos os dias (inspirado no poema Todos os dias agora acordo com alegria e pena de Alberto Caeiro)
- Dorme enquanto eu velo (inspirado no poema homónimo de Fernando Pessoa)
- Presságio (inspirado no poema O amor, quando se revela de Fernando Pessoa)
- Não basta abrir a janela (inspirado no poema homónimo de Alberto Caeiro; encomenda da cantora Leslie Damaso)
- No ar da noite (inspirado no poema Cansa sentir quando se pensa de Fernando Pessoa)
- Vai alta no céu a lua da primavera (inspirado no poema homónimo de Fernando Pessoa)
- Dorme sobre o meu seio (inspirado no poema homónimo de Fernando Pessoa)
- A flor que és (inspirado no poema A flor que és, a que dás, eu quero de Ricardo Reis)
- Quando eu não te tinha (inspirado no poema homónimo de Alberto Caeiro)
Patrícia Lopes marca quinze anos de sua carreira como compositora lançando esse CD. E confirma a atividade de vida toda como pianista ao interpretar suas composições, permitindo a
nós uma escuta privilegiada de seu mundo. Trata-se, portanto, de um registro duplamente autoral, como pode ser percebido na peça Miniatura nº 1.
Sua busca por expressão aqui, entretanto, tem na canção o meio poético fundamental, tornando-se Fernando Pessoa seu interlocutor privilegiado. Inúmeros textos do poeta a inspiram a falar do feminino em Pessoa, num percurso que abriga tanto alguns dos seus sonetos como também poemas densos e complexos, onde os torvelinhos do poeta afloram e desafiam a compositora.
E ela responde a eles com muita sensibilidade: escolhe a recitação quase monotônica para trechos densos em Tenho tanto sentimento, mas também pontua a expressividade de outros
momentos por meio de bonitos gestos ascendentes, como em Se não a amasse tanto. A sonoridade dos poemas salta aos ouvidos, desnuda, nas faixas onde há a declamação solo – Já não sei andar só pelos caminhos –, ou acompanhada, como em Vai alta no céu a lua da Primavera, e serve de inspiração para as linhas vocais das canções, tratadas com respeito, e muito idiomáticas. E os instrumentos que as acompanham, pontuando-as, por vezes acrescentam comentários próprios, preenchendo introduções, interlúdios e até mesmo finalizações, como verdadeiras canções de câmera.
À semelhança de um prisma, que brinca com a luz, o feminino em Pessoa surpreende pela quantidade de nuances que abriga, encantando-nos.
Rio de Janeiro, agosto de 2017
Marisa Rezende

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