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Notas de Programa
O chamado experimentalismo talvez possa
equivaler, no domínio das artes, à importantíssima missão
dos eruditos que buscam e coligem documentos de que
outros irão mais tarde servir-se para escreverem a História.
Desde que encarada com a devida honestidade de
princípios, a acção dos historiadores e dos investigadores –
tal como a dos artistas e dos experimentadores de novas
possíveis abordagens da linguagem estética – é sempre
credora do maior respeito.
Entretanto, não há que negar – nem que
escamotear – que se verifica uma clara diferença entre as
funções concretas de um historiador e de um criador em
comparação com o trabalho exercido pelos diversos tipos de
pesquisador.
Tal como o historiador tem o dever de verificar a
validade das fontes que o orientam, também convém que o
artista desenvolva uma certa capacidade de pesquisa, não se
limitando a interpretar e utilizar os dados que lhe foram
transmitidos: mas trata-se de metodologias de trabalho algo
diferentes e, por vezes, até marcadas por um certo
antagonismo de pró-cessos.
Nunca deixarei de salientar o fascínio exercido
em mim pela multi-plicidade de opções estéticas que a
música do sec.XX nos legou, devendo-se uma boa parte
desse fenómeno ao labor de pesquisadores.
Contudo, também se assistiu, dentro de certos
terrenos, a uma sobre-valorização – ou errada interpretação –
do puro experimentalismo, con-fundindo essa actividade a
vários títulos meritória, como já disse, com a arte de um
verdadeiro compositor.
Ora, é evidente que uma tal atitude não poderia
deixar de enfraquecer a causa da música de qualidade,
transformada a pouco e pouco em produto de laboratório,
com toda a consequente deserção de um público não
necessariamente especializado, mas honesto e, sobretudo,
não hipócrita nos seus bravos e aplausos perante aquilo que
não entende.
Nalguns casos, esse material nem sequer se
destina a ser entendido e existe apenas ( o que já não é
pouco, repita-se…) para fornecer elementos que os músicos
virão mais tarde a trabalhar – e a transformar em música.
De facto, chega sempre um momento em que se
torna necessário aplicar em obras autênticas – e não apenas
em esboços sonoros eventualmente interessantes – todo o
vasto manancial de experiências acu-muladas.
Como dizia D.João II, “há tempos de coruja e
tempos de falcão”…
Do mesmo modo, também há tempos em que é
conveniente e neces-sário pesquisar, pois isso faz parte da
formação profissional de qualquer músico.
Mas lá vêm outros tempos em que aqueles que
tiverem aptidões para isso deverão assumir-se realmente
como compositores.
Esta Sinfonia nº3 – encomendada para celebrar
uma data histórica da minha muito querida cidade de Viana
do Castelo – é apenas mais um exemplo dos princípios que
defendo, podendo apenas salientar a utilização no quarto
andamento de um material temático que estivera até aí
exclusivamente adstrito à banda sonora do meu filme “A
Culpa”.
É mais um exemplo da tendência que sempre
senti para abordar diversos estilos dentro de uma mesma
partitura – ou mesmo dentro de uma só página…- desde que
assegure uma coerência estética que julgo fun-damental.
Program Notes
The so called experimentalism perhaps it can be, in the
domain of the arts, the essential scholars’ mission of
searching and collecting documents which later on will
serve other scholars to write History.
While faced with truthfulness, the historians and the
researcher’ role – as well as the artists and the experimenters
of new approaches to aesthetic languages’ role – is always
worth of deepest respect.
However, no one can deny – nor hide – that, there’s a
clear difference between an historian or a creator’s specific
functions and the work exerted by assorted kinds of
researcher.
Like the historian has the duty to verify the validity of
the sources that guide him, also the artist should develop a
certain capacity of research, not limiting himself to interpret
and to use the data that had been transmitted to him.
Although, different methodologies of work are assumed,
sometimes enclosing a certain antagonism of processes.
I will always pointed out the allure that multiplicity of
aesthetic options in the XX century music exerted in me.
This occurrence is preponderantly concerned with the
researchers’ work.
However, in certain fields, it was observed an
overvaluation – or missed interpretation – of pure
experimentalism, confusing this activity, many times
valuable, with the true composer’s art.
So, it’s obvious that such attitude would weak the
good music’s cause, little by little transforming it into a
laboratory product, leading to a lack of not necessarily
specialized but truthful public, above all not hypocritical in
its bravi and applauses, dealing with what they do not
understand.
In some cases, this material is not even destined to be
understood and only exists (and this is already important…)
to supply workable elements that musicians will work later
on transform into music.
In fact, a moment will arrive when it becomes
necessary to apply on an authentic workmanship – and not
only on eventually interesting sonorous sketches – all the
vast source of accumulated experiences.
D. João II, King of Portugal, used to say
“There’s owl’s time and hawk’s time”…
In the same way, there’s also periods when is
convenient and necessary to research, for the reason that is
part of any musician’s professional development.
But there comes the time when, those that have
natural talent, will really be respected as composers.
This Third Symphony – requested to celebrate an
historical event of my beloved city: Viana do Castelo – is
only just an example of the principles that I corroborate. I
would like to point out the fourth movement, where I use
thematic material from the sound-track of one of my films –
“The Guilt” (A Culpa).
This is once more an example of the tendency I always
felt to approach assorted styles on the same piece – or even
on the same single page… – always assuring an aesthetic
coherence that I consider fundamental.
António Victorino D’Almeida


















