viola de 5 ordens (guitarra barroca) / baroque guitar
Revisão Crítica / Edited by Tiago Matias
A obra completa de António Marques Lésbio (1639-1709) para viola
Vida
António Marques Lésbio (1639, Lisboa – 1709, Lisboa)
António Marques Lésbio nasceu em Lisboa em 1639, numa altura em que Portugal ainda se encontrava sob domínio do reino de Espanha. Com a restauração da independência a 1 de dezembro de 1640, sobe ao trono D. João IV, que viria a ser um dos monarcas que mais patrocinou as artes em Portugal. Coincidentemente, quando António Marques Lésbio morreu, a 21 de novembro de 1709, reinava D. João V, neto de D. João IV, que também foi um grande patrono das artes e da música em particular.
Em 1648, António Marques, com 9 anos de idade, foi admitido entre os moços da Capela Real. Aos 14 anos terá composto umas das suas primeiras obras musicais, chamando então a atenção de João Lourenço Rebelo, compositor de grande relevo no panorama seiscentista português e irmão do Padre Marcos Soares Pereira, mestre da Capela Real entre 1641 e 1655, e, por isso, mestre de António Marques. Rebelo, surpreendido pelo talento do jovem António, usando da proximidade que tinha com D. João IV, informou o monarca que predestinava um grande futuro a António Marques na arte da música.
A sua ligação à corte portuguesa e às suas instituições musicais foi uma constante ao longo de toda a sua vida. Terá entrado como músico da Real Câmara ainda no reinado de D. João IV. Paralelamente, por volta de 1660 compôs os primeiros vilancicos. Em 1668, um ano depois de D. Pedro II ter subido ao trono em substituição do seu irmão D. Afonso VI – ambos filhos de D. João IV – Marques é nomeado mestre dos músicos da Real Câmara. A partir de 1679 a sua vida passa a estar intrinsecamente ligada à Capela Real, onde ocupou diversos cargos, como cantor, mestre dos moços de coro da Capela Real (1679), escrivão de contos (1680) e bibliotecário da Real Biblioteca de Música (1692). Em 1698, com 59 anos de idade, é nomeado Mestre da Capela Real, cargo que ocupou até à sua morte, em 1709. No contexto musical português dos séculos XVII e XVIII este seria provavelmente o título que maior reconhecimento trazia a um músico. António Marques Lésbio foi um dos maiores compositores barrocos portugueses, a sua obra – até este momento associada maioritariamente a dezenas de tonos e vilancicos já conhecidos e outros que foram descobertos nos últimos anos – ganha agora uma nova dimensão e variedade, com as obras para viola (guitarra barroca) que lhe atribuímos.
António Marques adoptou provavelmente o título de “Lésbio” numa alusão à ilha grega de Lesbos, no mar Egeu, onde se crê que teve origem a poesia lírica, sendo pátria de nomes maiores da poesia grega como Alceu e Safo, entre outros. Além de músico e compositor, António Marques Lésbio era também poeta. O texto da maior parte dos seus vilancicos – género pelo qual era e é ainda nos nossos dias mais conhecido – era de sua autoria, o que não sendo uma característica exclusiva de António Marques Lésbio, o distinguia entre os seus pares. Lésbio era membro da Academia dos Singulares de Lisboa, círculo literário activo na segunda metade do século XVII e século XVIII. Apesar da adopção do nome “Lésbio”, o compositor assinava e/ou era referido nas obras de sua autoria como simplesmente Ant[ónio] Marques, facto que virá a ser relevante na investigação que foi levada a cabo em relação à sua obra, como veremos mais adiante.

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