Francisco de Lacerda
36 Histoires pour Amuser les Enfants d’un Artiste
As 36 Histoires pour amuser les enfants d’un artiste são, de entre a escassa produção de Francisco de Lacerda, uma das suas obras mais significativas, e a mais importante que dedicou ao piano, bem como uma das mais belas incursões de um compositor português no universo infantil herdado de Schumann e das suas Cenas Infantis. Tal como na celebrada obra de Schumann, as 36 Histoires… não se destinam a serem tocadas por crianças, embora tal seja possível, uma vez que o requinte e sofisticação da escrita, bem como o contexto até filosófico de algumas, está, na maioria dos casos, além da maturidade técnica e espiritual de uma criança, o mesmo acontecendo com as Cenas Infantis. Este é o universo de um pai enternecido, que escreve, ao sabor da inspiração (e do tempo!), obrinhas só aparentemente singelas, sobre animais e os seus costumes, quer reais quer inventados, por vezes até os transformando, aos animais e suas aventuras e desventuras, através de curtos textos ou expressões apostas ao texto musical, em parábolas antropomórficas. Esses textos que, como a música e até a estética de algumas das peças, denotam a influência de Erik Satie e do seu período humorístico (cujo auge foi por volta de 1914), não se destinavam, supomos (tal como acontece em Satie), a serem lidos em alta voz durante a execução musical mas, enquanto Satie precisa que os textos não devem ser lidos, já Lacerda nada refere sobre o assunto. No entanto, seguindo a cada vez maior tendência de executar essas obras de Satie juntando-lhes a narração dos textos (caso de Sports et Divertissements, provavelmente o ciclo do compositor francês que mais se aproxima do ciclo de Lacerda), decidimos, nesta gravação, e com o contributo da belíssima voz da actriz Maria de Medeiros, também o fazer. Dada a dimensão espirituosa dos textos, do seu – por vezes – ritmo cinematográfico, e considerando também o público-alvo das peças, que são as crianças, pareceu-nos justificada a decisão que, aliás, não é original.
O que é original nesta gravação, para além das especificidades de interpretação e registo/trabalho de som inerentes a qualquer nova versão discográfica, é a edição que foi usada. Francisco de Lacerda foi escrevendo estas peças ao longo de vários anos, algumas tendo-as publicado em revistas artísticas, suplementos jornalísticos e outros contextos esporádicos, e outras em edições musicais avulsas. Assim, enquanto certas peças foram publicadas com boa qualidade, outras só existiam, à hora da sua morte, em manuscrito, sendo que alguns destes estão tão rasurados e contém tantas possibilidades de escolha que tornam qualquer edição totalmente fidedigna às intenções do compositor impossível sem a sua presença (alguns até só existem em cópias por mãos alheias, cópias que, também elas, contém variantes…). As duas edições que foram realizadas, se pioneiras por terem juntado todas as 36 peças num único volume (menos uma, mas já lá iremos), por terem vertido os manuscritos para uma versão computadorizada, e por terem tentado extrair dos manuscritos mais confusos uma lógica que os tornassem exequíveis, são, ainda assim, problemáticas a vários níveis. A qualidade do “software” da época era muito fraca, pelo que o aspecto gráfico deixa muito a desejar, foram deixados muitos erros sem correcção, erros que derivaram da cópia e não dos próprios manuscritos, algumas soluções musicais para as versões mais conflituosas nem sempre se nos pareceram as melhores e, por fim, a última peça das duas edições não pertence ao ciclo original. A decisão de incluir a peça intitulada Pour endormir le Dragon Rouge, se compreensível à época, para obter o número total de 36 peças (previsto por Francisco de Lacerda em várias listagens que fez com os títulos do ciclo), deixou recentemente de fazer sentido, uma vez que encontrámos o original da peça em falta (tendo-nos sido facultada uma cópia digital do mesmo): Maman Hippo-po-tame endort son Bébé.
A peça anterior, que serviu durante décadas de peça nº36, era claramente uma solução de recurso, porém, sem as características das restantes. Desde logo pela sua duração, complexidade e título. Na verdade, o “dragão vermelho” do título (que teria sido, aliás, o único animal mitológico de todo o ciclo, só por isso destoando do resto) refere-se à ameaça da Revolução Bolchevique de 1917, e é nesse sentido que Lacerda apõe esse título, histórico-político portanto, demasiado longe da poética e intenções originais. Com a descoberta da última peça, esta gravação é assim a primeira a incluir todas as peças originais escritas por Francisco de Lacerda, baseando-se este registo na nova edição das obras realizada por Diana Botelho Vieira e Sérgio Azevedo, edição que não só inclui a referida 36ª peça como cotejou todos os materiais disponíveis, desde as edições impressas até aos manuscritos existentes (é possível, e parece-nos evidente, que vários desapareceram, inclusive eventuais versões finalizadas), tentando não só eliminar os erros mais crassos como também fornecer um grafismo actualizado, claro, prático e esteticamente agradável aos intérpretes. Quanto às versões, rasuras, acrescentos e outros problemas que, como referimos, nenhum editor alguma vez poderá arrogar-se direito de os tornar conclusivos (a não ser que se descubram versões originais, completas e inequívocas, provadas da pena de Francisco de Lacerda, o que não é, de todo, impossível, como prova a descoberta da 36ª peça), decidimo-nos, através do conhecimento do estilo do compositor, da análise musical das peças em questão e da lógica de condução das vozes, da exequibilidade pianística, enfim, através de todos os meios técnicos à nossa disposição, por uma versão que, longe de uma perspectiva musicológica, privilegia antes uma abordagem puramente musical.
Assim, tomámos a liberdade de acrescentar certas articulações, dinâmicas e outros detalhes que nos pareceram em falta, e escolhemos, dos vários caminhos possíveis, os que se nos afiguraram mais musicais, os que, no nosso entender, beneficiariam mais uma versão final das peças em dúvida. Estando todos os materiais que nos serviram de base à disposição do público, de forma digital ou impressa, qualquer intérprete ou simples curioso poderá cotejar estes com a nossa versão, e, eventualmente, decidir-se por uma própria, pelo que a edição das 36 Histoires e este registo discográfico não contêm nenhuma chamada musicológica ou académica. Procurámos, musicalmente, devolver de forma completa e o melhor possível esta música aos novos intérpretes e público, sabendo que nunca veremos fechada esta questão enquanto não aparecerem versões completas e inequívocas de algumas das peças. E, se um registo sonoro deste tipo não é passível de emenda, já a versão impressa em partitura, graças às vantagens do “print-on-demand” é sempre passível de correcções que nós, ou outros, venham a ter de fazer no futuro, sem assim inviabilizar toda uma tiragem, algo que, no passado, também contribui para a perpetuação de gralhas e outros erros nas edições musicais, fossem elas quais fossem.
Sérgio Azevedo
Diana Botelho Vieira

Serenade Quartet
Trilogia das Barcas de Gil Vicente
24 Bagatelas: Omaggio a György Ligeti 











