“Cantaram para mim durante a minha solidão… Cai sobre nós a luz do dia e a nossa vigília transformou-se em dia pleno e temos de nos separar.
Se no crepúsculo da memória nos encontrarmos uma vez mais, juntos falaremos outra vez e cantaremos uma canção ainda mais profunda.
E se as nossas mãos se encontrarem noutro sonho, construiremos outra torre no infinito.”
Muito me honra a presente edição deste Noturno in Memoriam pelas vítimas do Covid pela editora AVA. Uma obra que, acredito, se ergue como um memorial para aqueles que foram tragicamente ceifados por um flagelo que vitimou milhões ao redor do mundo. Mas, as vítimas somos todos nós — não apenas os que partiram, mas também aqueles que ficaram.
O desaparecimento do meu pai em junho de 1999 foi um momento indelével. Três dias antes, longe de imaginar que o iria perder sem tempo para me despedir, escrevi os primeiros momentos do Noturno. Uma premonição qualquer, talvez! Contudo, mais de 20 anos separam esse instante do formato final desta obra, numa associação direta ao luto de uma das pessoas mais importantes da minha vida.
Esta obra procura também homenageá-lo. Tornou-se uma jornada pelos labirintos da mente, desafiada pela perda prematura de um ente querido. No seio de um turbilhão de sentidos, sensações e reações, as emoções explodem num frenesi que parece galopar sem destino sobre uma dor que, no mínimo, desafia qualquer descrição. São esses retratos fugazes de momentos intensos que procurei traduzir à minha maneira na partitura desta obra. Mais do que vivê-los em carne própria, senti, como um eco distante, o impacto do choque; a incredulidade das notícias e das imagens que, qual rio em fúria, inundaram a minha consciência de forma inquietante e avassaladora durante aquele longo período. Foi nesse confronto íntimo que nasceu a necessidade imperiosa de me expressar através desta criação musical.
A estrutura da obra evoca uma sucessão de momentos, como quadros que se desdobram diante de uma mente dilacerada pelo choque extremo — a perda de um familiar ou amigo em circunstâncias tão abruptas. Cada etapa descrita na partitura emerge com intensidade: a dor crua e lancinante, a raiva incontida, a tristeza profunda que parece interminável, entremeada por sonhos e memórias que se agarram ao coração. E, por fim, a aceitação serena, a elevação da alma, mesmo sem a chance de um último adeus.
Victor Gomes
Dedicatória
Ao maestro, violinista e amigo Eliseu Silva, pois a si devo não só o apoio na escrita e edição na composição do solo e o exímio som do violino que emprestou à gravação desta obra, mas também a confiança que depositou em mim, num incitamento e apoio constante ao longo do processo de criação da obra.

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